Depois de mais de 11 anos de estrada, dez músicos no palco e a fama de não deixar ninguém parado, Samuca e a Selva lançam, em 23 de setembro, o álbum “Pra Gente Se Acabar”. O título é diagnóstico, convite, legado e, possivelmente, despedida.
O disco nasce de uma constatação que o grupo decidiu não maquiar: manter um coletivo de dez pessoas na estrada tornou-se quase inviável. “O tempo avança, novas prioridades da vida adulta vão surgindo e o mercado muda drasticamente, favorecendo em inúmeros aspectos os artistas solo e fazendo com que as bandas, principalmente as de grandes formações, entrem pouco a pouco num processo de extinção”, afirma Samuel Samuca, vocalista e fundador. O fim da banda não está decretado, mas está em pauta.
A possibilidade de encerramento se transforma em reflexão sobre outros fins. Crise climática, guerras e genocídios, pandemias, democracias em crise, ascensão da extrema direita, inteligência artificial, pós-verdade e ultraindividualismo formam o pano de fundo daquele que talvez seja o trabalho mais profundo e maduro do grupo.
Ao mesmo tempo, “Pra Gente Se Acabar” recupera uma expressão genuinamente brasileira, usada para anunciar festa, êxtase e entrega total. O título sintetiza as forças que atravessam o disco: fim e celebração, luto e vida, caos e dança. “É sobre a grande merda que é o fim e a grande beleza que há em enfrentá-lo, escolhendo dançar e se entregar ao máximo pra vida enquanto ela ainda existe”, resume Samuca.
Musicalmente, o álbum revela a evolução dos 11 anos de estrada em 13 canções que transitam por referências como Marku Ribas e Sade. Saúde mental, especulação imobiliária, paixões, saudade, angústias e o espírito do tempo aparecem em uma obra que se aproxima de uma trilha sonora. A identidade do grupo permanece: a fusão da música popular brasileira com elementos latinos e do jazz, potencializada pela sonoridade do decateto e pela poesia de Samuel Samuca, Allan Spirandelli e Léo Malagrino.
O trabalho reafirma ainda a parceria com o produtor Marcos Maurício, que já havia colaborado com a banda em Madurar (2016), indicado ao 28º Prêmio da Música Brasileira, e Ditados Populares Dançantes (2022), incluído entre os Top 50 da APCA. A novidade é a coprodução de Samuca, que assume a função pela primeira vez ao lado de Maurício.
“Pra Gente Se Acabar” é um disco para dançar, refletir, chorar e ouvir camada a camada — porque, ali, nada é por acaso.